Opinião

Estamos à altura?

Hoje celebramos o Dia da Região Autónoma dos Açores e é, antes de tudo, um dia de afirmação coletiva. Celebra a nossa identidade, a nossa história e a conquista de termos voz própria e capacidade de decidir mais perto das pessoas. Num ano em que se assinalam 50 anos da Autonomia Constitucional, esta celebração ganha maior densidade política, não é apenas memória, é exame de consciência.
A Autonomia foi uma das maiores conquistas dos Açores. Permitiu construir instituições, infraestruturas, respostas sociais e uma administração capaz de olhar para as ilhas a partir das ilhas. Deu-nos instrumentos para combater o isolamento, defender a coesão territorial e afirmar a nossa diferença. Mas celebrá-la exige mais do que evocação, exige honrar aquilo que deve servir, melhorar a vida dos açorianos.
Hoje, a Região enfrenta dificuldades que não se resolvem com discursos solenes. A saúde continua pressionada, a habitação pesa sobre as famílias, a pobreza persiste, os jovens saem e a demografia torna-se uma ameaça silenciosa ao futuro das ilhas. A capacidade de criação de valor acrescentado permanece limitada, as finanças públicas condicionam decisões e a economia continua demasiado dependente de apoios, ciclos externos e setores vulneráveis. Soma-se a isto uma realidade laboral marcada por baixos salários e vínculos precários, deixando as famílias sem estabilidade.
Temos Autonomia, sim. Mas a pergunta que se impõe é outra: estamos a usá-la com visão e coragem?
A Autonomia não pode ser apenas reivindicar recursos. Tem de os transformar em valor e oportunidades. Não pode justificar atrasos, nem esconder responsabilidades atrás da geografia. A insularidade explica muito, não desculpa tudo.
O próximo ciclo da Autonomia exige qualificação das pessoas, das empresas, dos serviços públicos, da administração e da decisão política. Exige fundos europeus bem usados, contas públicas responsáveis, emprego digno, salários justos, combate à pobreza, fixação de jovens e uma Universidade dos Açores no centro da estratégia regional.
O Dia da Região deve, por isso, ser celebrado com orgulho, mas também com inquietação democrática. Porque amar os Açores não é aceitar que fiquem aquém do que podem ser. Amar os Açores é exigir mais. Mais competência, mais transparência, mais justiça social, mais ambição e mais futuro.
A Autonomia que recebemos foi conquista. A Autonomia que deixaremos dirá se estivemos à altura dela.